Crédito: MPEG - Mapa de áreas desflorestadas
15/09/2010 - 13:01
Com mais de três décadas de atividades na região amazônica, a pecuária é uma atividade que interfere diretamente no processo de ocupação da região. A conversão da floresta primária em pastagens pode causar uma série de impactos, como alterações nos ciclos bioquímicos e a perda de biodiversidade.
Buscando analisar esse processo a bolsista do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG/MCT), de Belém (PA), Gabriele Ferreira Monteiro, orientada pelo pesquisador Jorge Gavina Pereira, desenvolveu o estudo Caracterização do Desflorestamento na Fronteira da Expansão da Agropecuária no Sudeste do Estado do Pará. As áreas escolhidas para a análise foram os municípios de São Félix do Xingu e Altamira, no sudeste paraense, dada as suas relevâncias no processo de expansão da ocupação de fronteira.
Gabriele diz que o objetivo do estudo foi analisar os padrões de abertura de áreas de floresta para a expansão da fronteira agropecuária no sudeste do estado, no período de 1997 a 2008. Para desenvolver a analise, ela estabeleceu como base seis unidades espaciais e utilizou dados de desflorestamento gerados pelo Programa de Cálculo do Desflorestamento da Amazônia (Prodes) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe/MCT), informações reconhecidas como oficiais do governo.
Resultados
Tomada como ponto inicial de referência, é a partir de São Félix do Xingu, que se definiram as seis unidades espaciais utilizadas na pesquisa. Divididas de forma concêntrica (circular), as unidades estão em trechos de 0-50km, 50-100km, 100-150km, 150-200km, 200-250km e 250-300km da sede.
De acordo com a pesquisa, os resultados permitiram comparar as unidades espaciais de estudo e o comportamento do desflorestamento para cada um dos anos analisados. Na área mais próxima da cidade de São Félix, por exemplo, onde a ocupação é mais antiga, há pouca floresta e muita intervenção humana.
Uma das características analisadas pela pesquisa é de que o tamanho médio das áreas desflorestadas é maior nas unidades mais distantes. Para ilustrar essa evidência do estudo, está o fato de que, apesar da unidade espacial de 0-50 quilômetros ter 6.527 pontos de desflorestamento, esses pontos têm em média 24 hectares. Já a unidade espacial mais distante, entre 250-300 quilômetros tem apenas 48 pontos de desflorestamento, mas cada um apresenta, em média, 95 hectares.
Se as ocupações mantiverem a dinâmica que vêm apresentando nos 11 anos analisados, quando o segundo nível de ocupação não tiver mais áreas para serem ocupadas, o desflorestamento continuará a avançar. A pesquisa detectou que, no período analisado, a maior área desflorestada se concentra na região que fica de 50 a 100 quilômetros de São Felix, uma vez que nas áreas mais próximas a sede do município o desflorestamento foi menor, possivelmente, por falta de áreas de floresta a serem derrubadas.
Uma das hipóteses levantadas é que as áreas de florestas próximas à sede do município estão se acabando, por conta disso o desflorestamento vem crescendo em áreas mais distantes da sede do município.
A retirada da floresta interfere diretamente no clima da região, uma vez que é ele que regula diversos ciclos, como o das precipitações (chuva). As conseqüências ocorrem em cadeia, pois se a retirada das florestas interfere nas precipitações, também interferem na seca e cheia dos rios e na drenagem das terras.
Na opinião de Pereira, “o aumento da produtividade das áreas já abertas (desflorestadas) diminuiria a pressão para a abertura de novas áreas de floresta". O orientador da pesquisa explica que “o conhecimento dos padrões de modificação da floresta para outros fins é crucial para a compreensão do processo de desflorestamento, que por sua vez, é importante para subsidiar a elaboração de políticas públicas que visem ordenar a ocupação”.
São Félix do Xingu
Município criado em 29 de dezembro de 1961, que tem como base econômica a pecuária de corte, tem o maior rebanho do Brasil com mais de 1,7 milhões de cabeças. Hoje, além da sede, o município é constituído por quatro distritos: Taboca, Nereu, Lindoeste e Ladeira Vermelha.
Altamira
Município com área de 161 584,9 Km², é o maior do País e do mundo em extensão territorial. Tem como principais atividades econômicas a agricultura (arroz, cacau, feijão, milho, pimenta-do-reino), a extração de borracha e castanha-do-pará e a pecuária. Localizado na região chamada Terra do Meio no centro do Pará, é uma das áreas mais importantes para conservação da sóciobiodiversidade da Amazônia, e cenário de intensos conflitos fundiários.