Compreender a dinâmica sócio-ambiental da agricultura familiar e a sua influência no sustento de famílias na localidade de Jandira, no município de Iranduba, a 22 quilômetros de Manaus, Amazonas. Este foi o tema da dissertação de mestrado apresentada em agosto de 2008 ao Programa de Pós-Graduação em Ciência do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
O trabalho foi apresentado pela mestranda Ligia Costa de Souza, orientada pelo pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCT), Hiroshi Noda, doutor em genética e melhoramento de plantas. Durante um ano, a pesquisadora coletou dados para a pesquisa em Jandira, região situada em área de várzea formada por várias comunidades na margem esquerda do Rio Solimões.
Para a pesquisadora, estudos sobre formas de produção utilizadas pelas populações tradicionais na Amazônia são de fundamental importância para nortear políticas públicas para a região. "Esses sistemas contribuem para a preservação da maior floresta tropical do mundo a partir do emprego de padrões sustentáveis de uso e manejo da terra, por isso, são de fundamental importância", afirma Souza.
Os dados da pesquisa dela foram coletados nas duas principais comunidades por meio de entrevistas, questionários e observação direta. Como resultado, foi possível levantar um verdadeiro arsenal de informações sobre o que ela chama de "Circuito de Produção", no qual o produto gerado circula com valor de uso, e o "Circuito de Mercado", ou seja, o valor da troca e comercialização das mercadorias.
"Dentro desse contexto, observamos que o sistema agrícola inserido em uma realidade local e regional possui uma dinâmica própria de atores e interesses, considerando, principalmente, a diversidade sócio-cultural, as condições ecológicas do ambiente e a diversidade de saberes desenvolvidos pelas populações tradicionais e indígenas", explica a pesquisadora, esclarecendo ainda que o objetivo do trabalho foi avaliar os fatores socioeconômicos e os fatores ambientais que influenciam ou são influenciados pela agricultura familiar.
Produção agrícola
Como resultado, a pesquisa traz informações como: a caracterização das famílias (origem, tempo de residência e atuação agrícola e atividades desenvolvidas); a divisão do trabalho entre os membros familiares; infra-estrutura da localidade; fatores que contribuem para a permanência das famílias no local mesmo em épocas de cheia do rio e a descrição detalhada de tudo que é produzido no local.
De acordo com a pesquisadora, a produção diversificada se dá em pequenas áreas: o sítio ou quintal, onde são cultivadas hortaliças, plantas medicinais e frutas; a roça, utilizada para o plantio de milho e mandioca, situando-se num plano comercial secundário; a capoeira, terras temporariamente abandonadas onde se predomina o plantio de espécies mais exigentes e duradouras como couve e maracujá; área de pasto, destinada a pequenas criações de gado; e a própria mata, onde ocorre o extrativismo vegetal e animal, em pequena escala.
O comércio dos produtos é feito por meio de atravessadores que, em geral, ditam os preços das mercadorias, desvalorizando o trabalho dos agricultores que, por mês, faturam em média o valor líquido de R$ 552,00.
Apesar de parecer baixo, Souza defende que o valor médio arrecadado pelas famílias pode ser considerado satisfatório, tendo em vista a forma de produção e a organização social que acabam interferindo diretamente na qualidade de vida da população, no equilíbrio do ecossistema e nas dinâmicas sociais e econômicas.
"Com todos estes dados foi possível concluir que a modalidade de agricultura praticada pelos produtores familiares de Jandira tem como contribuição sócio-econômica a prática da conservação de ambiente manejado, que pode ser utilizado como exemplo por outras comunidades no interior do estado", ressalta a mestre.
O trabalho, que recebeu incentivo do Programa Institucional de Apoio à Pós-Graduação Stricto Sensu (Posgrad) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), vai servir também para a atualização da base de dados para outros estudos na mesma área. "O nível educacional elevado faz com que as famílias se mantenham no local, diminuindo o êxodo rural, ao ponto dos filhos dos agricultores retornarem à comunidade, considerada bastante produtiva e com produtos de alta qualidade", finaliza a pesquisadora.
Com informações de Ulysses Varela, da Agência Fapeam