João Alves da Silva e Francisco Maciel viviam, até o final da década de 90, na periferia de Campinas (SP) e tinham poucas perspectivas de um futuro próspero. Hoje, são pequenos produtores rurais, têm onde morar e ganham um salário digno. O que mudou a vida dos dois e de mais de 100 famílias de sem-terra foi a parceria entre o CNPq, o Instituto Agronômico do Estado de São Paulo (IAC), o Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp) e a Associação de Pequenos Produtores Rurais "12 de Outubro". O trabalho conjunto começou em 2001 e resultou na implementação de uma série de atividades de pesquisa e capacitação para práticas agrícolas no assentamento Horto Vergel, em Mogi Mirim, também em São Paulo.
Na região desde 1997, quando participaram da ocupação de terras e foram beneficiados pela reforma agrária e o loteamento local, João e Francisco aprenderam sobre agricultura familiar e o cultivo de algumas espécies que pudessem gerar renda para eles e para a comunidade. Os estudos feitos no local graças ao investimento das instituições parceiras puderam recuperar o solo, promover a utilização da vegetação já instalada nas terras da região, o plantio de plantas aromáticas, mandioca e arroz, entre outras atividades que proporcionam uma sustentabilidade econômica, ambiental e social.
Após três anos de existência do projeto, os produtores contam, ainda, com tecnologia para a extração de óleos essenciais de capim limão, eucalipto e citronela. Além disso, possuem transporte próprio para levar a mandioca diretamente a uma Central de Abastecimento para a comercialização do produto, entre outros avanços que potencializam os resultados obtidos, viabilizando, assim, o agronegócio local.
Encontro no CNPq
Foi este retrospecto positivo que João e Francisco, acompanhados pelo pesquisador e coordenador do programa pelo IAC, José Guilherme Freitas, e pelo responsável pelo Itesp por 11 assentamentos na região de São Paulo, Antônio Carlos Bertocco, apresentaram ao presidente do CNPq, Erney Camargo, nesta terça-feira, dia 19, em visita à agência. O CNPq é uma das agências de fomento do Ministério da Ciência e Tecnologia.
Francisco falou sobre a importância do projeto para sua vida, lembrando que hoje tem uma renda anual de R$ 9 mil e possui um lote de 8,5 ha - média de tamanho dos lotes do assentamento -, enquanto antes não tinha salário nenhum para sustentar a família. Ele organiza um grupo de agricultores na plantação de arroz, mandioca e, recentemente, na produção de flores. Francisco apresentou amostras da primeira colheita de crisântemo, cujo investimento de R$ 16 mil retornou um faturamento de R$ 24 mil.
João atua como organizador da destilaria de óleos essenciais, onde trabalham nove famílias. Além disso, fundou a Associação de Pequenos Produtores de Óleos Essenciais. No assentamento, são utilizados o eucalipto, o girassol, o capim limão e a citronela. Cada hectare de terra pode produzir de 100 a 150 kg de produto, que é vendido a R$ 45 o quilo. Além disso, são vendidas as mudas que não são utilizadas no assentamento. João já tem encomenda de 40 mil mudas, vendidas a R$ 0,10 cada. O capim limão é, inclusive, uma oportunidade de rendimento crescente para João e as famílias que com ele trabalham. Com as mudas reaproveitadas, é possível aumentar em dez vezes a extensão da plantação a cada três meses.
O pesquisador Freitas avalia o projeto como uma idéia bem sucedida também pela gestão econômica, que permitiu que os R$ 31 mil repassados pelo CNPq rendessem por quatro anos, o dobro do previsto inicialmente, e despertou o interesse de várias empresas na comercialização dos produtos oriundos do assentamento. Há, por exemplo, uma proposta de criação de um pólo de comercialização paralelo à estrada que corta a região, incluindo a construção de um restaurante onde serão utilizados os produtos agrícolas do assentamento.