Diretor do Cnen Ivan Salati observa evolução tecnológica na questão de segurança contra acidentes radioativos Foto: Braz - Ascom da Cnen
O acidente radioativo com o césio 137 em Goiânia ajudou a aperfeiçoar a competência da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen/MCTI) na área de atendimento a emergências e em processos de remediação, reconhecidos pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). A avaliação é do diretor de Radioproteção e Segurança Nuclear da Comissão Ivan Salati, para quem o processo de controle de fontes radioativas tem evoluído muito nos últimos anos, inclusive com a criação de um serviço 24 horas para casos de emergência em todo o território nacional. Segundo ele, as possibilidades de ocorrer um novo acidente são “absolutamente pequenas”, uma vez que a evolução tecnológica do setor permitiu a gradual substituição do césio pelo cobalto como substância utilizada na produção de aparelhos ou equipamentos de radioterapia. Outra medida destacada por Ivan é o maior controle da Cnen para autorizar a importação de fontes de radiação, somente após o preenchimento de todas as exigências legais. Acompanhe, em seguida, a entrevista concedida pelo diretor da Comissão.
Passados 25 anos do acidente, qual é a lição?
A experiência de Goiânia ajudou a aperfeiçoar a competência na área de atendimento a emergências e em processos de remediação, reconhecidamente pela própria Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). O processo de licenciamento e controle de fontes radioativas também tem evoluído favoravelmente. Para aumentar a agilidade na verificação e no atendimento da emergência, foi criado um serviço 24 horas, treinado para fazer pronta identificação do fato, que pode ser enviado a qualquer parte do País para atendimento imediato. Nesse atendimento, com o uso de detectores, busca-se identificar se o material é realmente radioativo para, então, tomar as providências indicadas. Também foi criado um cadastro computadorizado que contém todas as instalações com fontes de radiação (exceto raios-X diagnóstico, sob regulação do Ministério da Saúde). Nesse cadastro, constam informações sobre as fontes e seus responsáveis. Além disso, o sistema de certificação de profissionais foi aperfeiçoado, o que aumenta a precisão dos exames da Cnen, para efeito de concessão de licenças.
Como a Cnen exerce o controle do uso desses equipamentos no país?
Para melhor controle da importação de fontes de radiação, o Sistema de Controle de Importações e Exportações (Siscomex), da Receita Federal, exige a aprovação prévia da Cnen para liberação desse tipo de material, somente após a confirmação de que todas as exigências legais constantes das normas da Comissão foram cumpridas. Houve, ainda, um aprimoramento na análise de transferência e desativação de fontes radioativas. A Cnen também realiza o treinamento de profissionais que têm alguma ligação potencial com o manuseio de fontes radioativas como Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, Vigilância Sanitária e Segurança Pública ou qualquer outra instituição que tenha interesse nesse aprendizado. Com tudo isso, o conhecimento sobre radiação ionizante e seus riscos é hoje muito maior. Além de manter atualizado um cadastro eletrônico dos equipamentos e máquinas que usam fontes radioativas, a Cnen exige que as instituições, onde os aparelhos serão instalados, passem por uma vistoria e que seus operadores sejam capacitados.
Quais são os riscos de se repetir um acidente radioativo como o de Goiânia atualmente?
As possibilidades são “absolutamente pequenas”, em razão da substituição do césio pelo cobalto como elemento radioativo utilizado na produção dos aparelhos de radioterapia. Ao contrário do cobalto, que consiste numa pastilha sólida que reduz muito o risco de radiação, o césio é um pó que pode ser facilmente disperso no ambiente, como ocorreu em Goiânia. Desde o acidente, há 25 anos, o mundo avançou muito no que se refere à prevenção, medidas de segurança e desenvolvimento de tecnologias mais seguras relacionadas à área nuclear.
Qual foi a avaliação da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) sobre acidente, na época?
A agência considerou que a radioatividade do local estava dentro do nível aceitável, ou seja, correspondente a 10% do volume máximo de contaminação, pelos padrões da instituição.
Como a Cnen soube do acidente com o césio-137?
O médico Dr. Alonso Monteiro, que estava tratando das primeiras pessoas que procuraram o Hospital de Doenças Tropicais (HDT) com sintomas de contaminação, entrou em contato com o físico médico de Goiânia, Walter Mendes Ferreira, no dia 29 de setembro de 1987. Imediatamente, com o uso de detectores de radiação emprestados do escritório da antiga Nuclebrás, na capital goiana, Walter confirmou a incidência de radiação em algumas áreas e procurou as autoridades locais que, orientadas por este profissional, iniciaram o processo de socorro e remediação. Informada, no mesmo dia, por Mendes Ferreira, a Cnen imediatamente se mobilizou, enviando, ainda no dia 29, uma equipe comandada pelo chefe do Departamento de Instalações Nucleares, José de Júlio Rozental, que chegou a Goiânia na madrugada do dia 30 de setembro, juntando-se às equipes locais no trabalho de identificação das pessoas atingidas pelo acidente.
Que medidas foram tomadas, após o aviso à CNEN?
Um conjunto de medidas foi tomado, na época, para melhorar a comunicação de ocorrências. A Cnen adotou, em poucas horas, diversas medidas, como a identificação das pessoas supostamente contaminadas ou irradiadas e isolamento das efetivamente contaminadas no Estádio Olímpico de Goiânia; identificação dos principais focos possivelmente contaminados; isolamento desses locais; informação sobre o acidente à população de Goiânia; informações sobre a dimensão do acidente; tratamento médico das vítimas; e, acompanhamento do impacto ambiental.
Quantas pessoas foram afetadas pela radiação?
Nos trabalhos realizados no Estádio Olímpico, 112.800 pessoas passaram por um processo de verificação com detectores de radiação. A Cnen constatou que 271 pessoas estavam contaminadas, 120 com contaminação em vestimentas e sapatos, e 151 com contaminação pessoal, externa (pele, cabelos) e/ou interna. Das 28 pessoas com maior exposição à radiação – que apresentaram queimaduras e feridas na pele – 20 foram internadas para receber atendimento mais específico. Destas, quatro chegaram a falecer nos dias subsequentes ao acidente. A detecção dos efeitos da radiação, no médio e longo prazos, depende de um acompanhamento médico, psicológico e social por parte do governo de Goiás.
Onde e como foram tratados os rejeitos do acidente?
Todo material gerado pela descontaminação da cidade de Goiânia (cerca de 6 mil toneladas), foi acondicionado em contêineres de concreto ou aço. Para o armazenamento definitivo desses contêineres, foram construídos dois grandes depósitos – em forma de grandes caixas especiais de concreto, atendendo normas de engenharia civil e de proteção radiológica, de gerência de rejeitos, de proteção física e de controle ambiental – numa área desapropriada pelo governo de Goiás para criação do Parque Estadual Telma Ortegal, no município de Abadia de Goiás. A vigilância é de responsabilidade do batalhão da Polícia Ambiental de Goiás, e o controle do depósito, pela Cnen. O controle do local do acidente, por meio do Programa de Monitoração Ambiental (PMA), é feito por monitoração radiológica contínua e pelas análises de amostras de água, solo, vegetação e sedimentos, coletados na área dos depósitos. Desde que foi criado, o depósito possui um nível baixo de radioatividade, uma vez que os rejeitos radioativos foram embalados em containeres, receberam revestimento e ainda foram acondicionados em uma grande caixa de concreto para garantir seu completo isolamento do meio ambiente.
¹ Considera-se radiação ionizante qualquer partícula ou radiação eletromagnética que, ao interagir com a matéria, “arranca” elétrons dos átomos ou de moléculas, transformando-os em íons, direta ou indiretamente. Só não é considerada radiação ionizante para efeitos regulatórios a radiação ultravioleta, devido aos seus baixos níveis de energia.
Texto: Ascom da Cnen - Ascom do MCTI