Para analisar os resultados obtidos pelo projeto Cadeia Produtiva do Couro, aprovado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq/ MCT/CT-AGRO), diversos setores se reuniram, na última semana, em Brasília. O evento foi promovido pelo Fórum de Competitividade da Cadeia Produtiva de Couros, Calçados e Artefatos, ligado ao Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior (MDIC), com participação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), de Campo Grande.
O Brasil possui o maior rebanho comercial bovino do mundo, segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2007 o país possuía 199,752 milhões de cabeças de gado. Para ajudar a encontrar soluções para esses problemas, há sete anos um grupo de pesquisadores, coordenados pelo pesquisador da Embrapa, Manuel Antônio das Chagas Jacinto, desenvolve um sistema de marcação e catalogação do couro de acordo com a qualidade do produto.
Em uma fase inicial os pesquisadores tiveram que criar formas para quantificar os estragos sofridos pelo couro, que pudessem definir sua qualidade comercial. Segundo a mestre em ciência animal e membro da equipe, Alexandra Rocha de Oliveira, não existiam parâmetros para definir a quantidade de mordidas de carrapatos, “contamos as mordidas uma a uma para estabelecer os critérios de muito dano, mais de 500 mordidas, médio dano, entre 100 e 500 mordidas e pouco dano, menos de 100 mordidas”.
Outro fruto dessa pesquisa, realizada em âmbito nacional por três centros de estudos da Embrapa e pela UCDB, é o software que tem como objetivo definir padrões de análise dos defeitos dos couros. A nova tecnologia poderá compor um equipamento de classificação que substitua a avaliação subjetiva, atualmente realizada por técnicos do curtume. “Além do equipamento, será necessário promover a rastreabilidade das informações, para que seja possível premiar os pecuaristas que entregarem animais com pele de boa qualidade”, afirma Jacinto. Hoje o pagamento é feito apenas por peça, sem qualquer adicional de qualidade.
O sistema é baseado em um sofisticado processador de imagens que consegue extrair parâmetros de figuras para posterior comparação. Os pesquisadores pretendem agora desenvolver um sistema de rastreabilidade completamente seguro, que permita marcar a pele ainda no frigorífico. A idéia é subsidiar a criação de um sistema nacional de classificação do couro, com a disponibilização de uma lista dos defeitos mais freqüentes, que possa gerar premiações ou ações de melhoria aos criadores.
Para a coordenadora do Programa de Pesquisa em Agropecuária e Biotecnologia do CNPq, “pesquisas como essa precisam ser cada vez mais implementadas, pois são elas que permitirão, ao lado de políticas públicas adequadas, a melhoria da cadeia produtiva do couro. Neste sentido, encerrou ontem o prazo para a submissão de propostas ao edital 22/2010 - Sustentabilidade Agropecuária, uma ação conjunta entre CNPq/MCT, EMBRAPA, CAPES e diversas Fundações de Amparo à Pesquisa, com mais de R$ 50 milhões disponíveis”.
Importância do Setor
Nos oito primeiros meses de 2010 as exportações brasileiras de couros já somaram US$ 1,17 bilhão, um aumento de 72% em relação ao acumulado do ano anterior. O cálculo é do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB). Contudo, grande parte desse material não é de boa qualidade. A falta de cuidado no manuseio e a ausência de comprometimento dos proprietários rurais, das transportadoras e dos frigoríficos fazem com que o país tenha um dos piores couros no mundo. Nos Estados Unidos 80% do couro produzido é considerado de primeira qualidade, já no Brasil apenas 8,6% da produção é de primeira ou segunda qualidade.