A produção científica brasileira dá cada vez mais sinais de que pode contribuir com inovação para solucionar problemas sociais. Uma dessas criações partiu da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), onde os pesquisadores desenvolveram um aparelho auditivo digital de baixo custo operacional a partir de componentes padronizados.
O modelo retroauricular (utilizado atrás da orelha), batizado de Manaus, traz a vantagem de ser um produto nacional num mercado dominado por empresas internacionais. Além de ser apresentado como alternativa mais barata e viável para atender pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS).
“O projeto foi idealizado para atender às especificações da Portaria nº 587 do Ministério da Saúde e segue recomendações para o desenvolvimento de tecnologias de reabilitação de baixo custo”, conta o engenheiro eletrônico Sílvio Penteado, do Laboratório de Investigações Acústicas (LIA) da USP e autor de uma tese de doutorado sobre o tema. Pesquisa defendida, em agosto de 2009; na época, como bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq/MCT).
Os pesquisadores argumentam que o governo gastou R$ 146 milhões com a importação de próteses auditivas em 2007. Calculam ainda que o “Manaus apresenta um custo de produção artesanal de US$ 140,13; enquanto os produtos comercializados no varejo podem alcançar preço de até R$ 12 mil (tecnologia C - avançada). Para o SUS, o preço pode chegar a R$ 1.100. Outro problema seria o alto custo para o usuário fazer a manutenção do aparelho após o término da garantia de um ano.
“O mercado nacional é dominado pelas empresas internacionais que fornecem as próteses auditivas ao Brasil. De cada 10 equipamentos, seis são adquiridos pelo governo. São aparelhos ótimos, mas não são os mais adequados para a realidade brasileira. A população não tem o mesmo poder de compra de um cidadão da Europa e dos Estados Unidos, onde esses produtos com alto grau de tecnologia são desenvolvidos”, sustenta Penteado.
O pesquisador da USP afirma que a nova tecnologia envolve uma plataforma eletrônica genérica e que permite o desenvolvimento de próteses auditivas de vários tipos. A proposta é que ela atenda o mesmo nível de tecnologia das próteses importadas, mas com uma configuração eletrônica genérica. Isso tendo o mesmo circuito eletrônico, com apenas três componentes: o microfone, o autofalante e um processador digital de sinais. “Nós conseguimos fazer uma combinação ótima entre os componentes com as nossas especificações (baixo custo de aquisição e de manutenção)”, explica.
Esforço multidiciplinar
O trabalho foi orientado pelo professor Ricardo Ferreira Bento, do Departamento de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da USP, coordenador geral do projeto, além de contar com a co-orientação do professor Nilton Nunes Toledo, da Escola Politécnica (Poli) da USP. Os testes com o Manaus foram realizados pela fonoaudióloga Isabela de Souza Jardim, tendo a participação de 60 pessoas portadoras de deficiência auditiva.
De acordo com os pesquisadores, o projeto foi apresentado, em dezembro, à Comissão de Alta Complexidade do Ministério da Saúde. “A receptividade foi muito boa. A intenção é propor e sensibilizar as autoridades para a implantação de um modelo semelhante ao dos remédios genéricos no País”, diz Penteado.