Divulgação/MCT - Odair Dias Gonçalves, presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen).
O Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), por meio da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), tem atuado no sentido de minimizar os problemas enfrentados com a suspensão, este ano, do fornecimento do molibdênio-99 pelas empresas HFR-Petten (Holanda) e MDS Nordion (Canadá).
O produto serve de matéria prima para a produção do tecnécio-99, principal radiofármaco empregado no diagnóstico de tumores, funções renais, problemas pulmonares, cardiológicos e hepáticos. A medicina nuclear brasileira atende hoje cerca de 3,6 milhões de procedimentos por ano, ou seja, cerca de 10 mil por dia.
Uma das medidas adotadas para garantir o fornecimento do molibdênio aos hospitais foi a manutenção de um acordo com a Argentina. Segundo o presidente da Cnem, Odair Dias Gonçalves, o Brasil passou também a comprar o tecnécio-99m pronto. “A importação do produto final tornou mais caro os procedimentos. Em função disso, tivemos ainda que solicitar ao Ministério da Saúde para subir sua tabela de preço”, enfatizou.
Gonçalves acrescenta que outros contratos foram fechados. “Tivemos que ir até a África do Sul e conseguimos mais um contrato de fornecimento do molibdênio. Hoje, estamos operando em cerca de 60% da capacidade. Paralelamente a esses fatores, os hospitais passaram a trabalhar de maneira mais eficiente. Antes, eles recebiam o produto na sexta-feira e começavam a utilizá-lo na segunda-feira. Hoje, as instituições utilizam o tecnécio assim que ele chega. Com isso, não há perda do produto”, informou.
O presidente da Cnem reiterou que a crise se deu em função da falta de investimentos em novos reatores de maior potência e múltiplas aplicações, particularmente para reatores de produção de radioisótopos. “O Brasil ficou anos sem investimento. Entretanto, o Ministério da Ciência e Tecnologia está empenhado na mudança deste quadro, o que é evidenciado no projeto de construção de um reator de pesquisa com características modernas e adequadas à produção de radiofármacos, previsto para entrar em funcionamento em 2016, orçado em cerca de US$ 500 milhões”, enfatizou.
Gonçalves informou ainda sobre um projeto que será implementado no Peru em parceira com a Argentina. “O Peru tem um reator, entretanto, não tem condições técnicas e equipamentos para produzir o molibdênio. Nossa intenção é investir na estrutura já existente naquele país para termos mais um fornecedor”, disse.
Essas e outras medidas são analisadas com teor de prioridade, pois Gonçalves acredita que a crise de fornecimento por parte do Canadá e Holanda não será regularizada ao longo de 2010.
Os radiofármacos são substâncias preparadas a partir de radioisótopos (material radioativo) quando os mesmos são combinados com outras substâncias de modo a se obter um produto com afinidade à matéria biológica. São usados na medicina nuclear (diagnóstico) e
em radioterapia. Eles são produzidos em reatores nucleares ou em aceleradores de partículas (como os cíclotrons) por meio da irradiação por partículas (nêutrons e prótons).
Logística
Além da dificuldade no fornecimento de radiofármacos por mercados externos, os institutos brasileiros, credenciados para a produção de radioisótopos, que poderiam suprir parte maior da necessidade interna, esbarram também na falta de uma logística eficiente para transporte desses produtos.
De acordo com o diretor Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN/MCT), instalado
em Belo Horizonte (MG), Sérgio Almeida Cunha Filgueiras, o aparelho cíclotron de sua unidade produz radioisótopos apenas para duas clínicas, enquanto que seria possível atender mais de 10 hospitais. “Poderíamos fornecer para vários lugares, mas, em função da posição geográfica em que estamos temos bastante dificuldade. Por exemplo, poderíamos fornecer para Recife porque estamos mais próximos, se comparado com São Paulo, que hoje atende aquela cidade. Mas isso é inviável porque não temos linhas aéreas regulares saindo de Belo Horizonte”, enfatizou.
Filgueiras diz que “o nosso projeto é produzir radiofármacos e, com isso, atender a demanda da sociedade. Porém, mais do que isso, precisamos associar a produção à pesquisa e formação de pessoal. Hoje, produzimos radiofármacos, glicose marcada por uma partícula radioativa, no caso o flúor. Nossa intenção é desenvolver novas moléculas marcadas com novas fórmulas ou outros materiais radiativos. Esse é o grande passo para quem desenvolve pesquisa em medicina nuclear”, destaca.
Segundo ele, algumas substâncias têm a vida útil muito curta e desaparecem muito rapidamente. “Por isso, o centro de produção e o de pesquisa precisam estar próximos”, destacou.
O diretor do CDTN disse que há mais dois hospitais
em Belo Horizonte que estão em processo de licenciamento. Com isso, o centro ampliará o fornecimento de radiofármacos para mais duas instituições.
Os isótopos radioativos têm aplicações na medicina e em outras áreas, como na datação radiométrica. O isótopo radioativo tálio, por exemplo, pode identificar vasos sanguíneos bloqueados em pacientes sem causar qualquer dano à saúde.
Crise do molibdênio
Em maio deste ano, o reator canadense NRU, um dos principais produtores mundiais de molibdênio-99, interrompeu seu funcionamento por problemas técnicos. Em julho, o reator o HFR-Petten, da Holanda, também parou. Juntos forneciam 64% do material para todo o mundo.
Desde 1º de setembro, a Cnen, por meio do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen/MCT),
em São Paulo (SP), enfrenta dificuldades na distribuição do molibdênio-99 e, com isso, teve que recorrer a outros fornecedores. A Argentina tem disponibilizado desde maio toda sua produção excedente para o Brasil.
O Ipen é a única instituição nacional que tem uma radiofarmácia preparada, com um processo produtivo adequado e que vem atendendo a 100% da demanda há mais de 10 anos. O Brasil consome cerca de 5% da produção mundial de Mo-99, ao custo de US$ 20 milhões por ano.
Além dos reatores canadense e holandês, apenas outros dois produzem comercialmente o molibdênio-99: o Safari, na África do Sul, e o BR2, na Bélgica. A falta do produto tem impactado serviços de medicina nuclear em todo o mundo.