As pesquisas paleontológicas na Amazônia têm um filão dos mais ricos localizado no Pará. Trata-se da Formação Pirabas, na região conhecida como Salgado Paraense. Abrigando na atualidade o município de Capanema próximo à Costa, a região é rica em calcário, produtora de cimento e alvo de muitos estudos que têm como fonte primária os fósseis.
Nas palavras de Inês Feijó, pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi (Mpeg/MCT), “unidade datada em torno de 23 milhões de ano, a Formação Pirabas é unidade marinha. Os fósseis que ocorrem nos calcários da região de Capanema indicam que o mar alcançava a região no período denominado de Mioceno Inferior”.
É exatamente uma pesquisa sobre esses fósseis de origem marinha que foi apresentado no 21º Congresso Brasileiro de Paleontologia, sob o título A Subfamília Thaerocytherinae hazel, 1867 (Crustacea, Ostracoda) na Formação Pirabas, Estado do Pará. O trabalho é de autoria de Antônio Leonildo Dergan (Pibic/CNPq) e Maria Inês Ramos, com apresentação na sessão de Painéis 2.
Pesquisadores do Goeldi participaram da 21ª edição do evento que reuniu, em Belém (PA), especialistas para discutir as mais atuais contribuições dos estudos da ciência que investiga a vida do passado do Planeta Terra. A Paleontologia é responsável também por analisar o desenvolvimento do planeta ao longo do tempo geológico, e o faz a partir do estudo de fósseis e dos processos que levam a sua formação.
Inês Feijó destaca a relevância da Paleontologia quando revela que fósseis como os Ostracoda “são importantes para os estudos paleoambientais, além de contribuir para definir a datação e relacionar estudos sobre bacias sedimentares.” Segundo ela, “as pesquisas da área têm aplicação para a exploração petrolífera”, assunto abordado por Oscar Jr, da Petrobras, que tratou do tema especificamente ligado à descoberta do Pré-Sal.
Ambiente favorável
Em outro estudo, Wellen Castelo e Inês Feijó discutiram a diversidade de Ostracoda e as variações encontradas no Amazonas. A apresentação ocorreu na quinta-feira (17), sob o título Estudo da variação morfológica de Cyprideis pebasae em depósitos neógenos da Formação Solimões, região de Eirunepé, AM. Segundo Feijó, a pesquisa trata da identificação de espécies, corroborando outros resultados sobre as interpretações do ambiente, dentre elas as oscilações do mar na região. “O mar avançou e recuou e esses avanços e recuos são detectados por meio da ocorrência de Ostracoda de vários gêneros e espécies,” informa a pesquisadora.
Análise Taxonômica de Eremotherium laurillardi Lund, 1842 dos depósitos Pleistocenos, município de Itaituba, Pará, de Denys Ferreira, bolsista do Programa de Capacitação Institucional (PCI/MPEG), em co-autoria com Maria Inês Ramos e Vladimir de Araújo Távora, da Universidade Federal do Pará (UFPA), foi outro dos estudos apresentados na semana.
Algas pretéritas
Polens e algas (diatomáceas) são importantes biomarcadores ambientais. Fundamentais para “a compreensão das modificações da paisagem litorânea amazônica nos últimos dez mil anos”, o pólen e as diatomáceas “são proxies biológicos (biomarcadores) utilizados com muito sucesso em estudos paleontológicos”, afirma a pesquisadora da Coordenação de Ciências da Terra e Ecologia do Museu Goeldi, Cristina Senna.
A região do arquipélago do Marajó, onde a zona costeira da margem leste tem rica diversidade de ambientes que resultam de mudanças do nível do mar e de variações climáticas é o campo da pesquisa. Em Palinoflora, Paleoecologia e Paleoambientes da planície costeira da margem leste da Ilha do Marajó, Pará no Holoceno Superior, que Senna assina com Lívia Cardoso da Silva Rodrigues e Ana Bernadete Arruda Leão, o argumento é de que a diversidade no ambiente propiciou formações de substratos sedimentares com composição, abundância e freqüência de espécies de diatomáceas, ligados a variações de salinidade e de alturas e freqüências de marés. A pesquisa fez análise conjunta da composição, abundância relativa e freqüência de diatomáceas (algas) modernas e antigas como biomarcadoras ambientais.
Diatomoflórula do Holoceno Superior da Planície Costeira Interna da Ilha do Marajó, município de Soure, estado do Pará, Amazônia é o título do outro trabalho que Cristina Senna assina com Fábio Campos Pamplona Ribeiro e Lezilda Carvalho Torgan. De acordo com a pesquisadora, “as diatomáceas, sendo algas silicosas, habitantes dos ambientes aquáticos, guardam em seu curto ciclo de vida, as características ambientais dos diferentes habitats desses ambientes aquáticos, traduzidos em termos de composição, riqueza e abundância relativa de espécies e hábito”.
As pesquisas no Marajó “mostraram que há uma tendência geral de regressão marinha no Holoceno Superior (últimos 2.700 anos), provavelmente causada por mudanças climáticas de longa duração (milhares de anos)”, revela Senna.
Também foi possível aos pesquisadores detectar ciclos climáticos recorrentes na costa amazônica. Eles observaram, a partir dos estudos das algas, “pequenas flutuações climáticas de ciclos mais curtos - ciclos climáticos com duração de dezenas a centenas de anos”, informa Cristina. Outro resultado do estudo se refere às “fortes implicações na relação água doce-água salgada no estuário amazônico”, devidas aos fenômenos de alteração climática. Eventos como esses, “têm impacto na biota costeira, em termos do tamanho das populações e da estrutura das comunidades”, completa Senna.
As diatomáceas ocupam lugar privilegiado nesses ambientes já que estão na base da cadeia alimentar e contribuem de forma determinante no papel que os manguezais desempenham enquanto ecossistemas exportadores de nutrientes. São as diatomáceas responsáveis pela produtividade daqueles ecossistemas.
Da programação constaram ainda sessões de palestra magistral e na sexta-feira (18), a palestrante foi a pesquisadora do Museu Goeldi, Maura Imázio da Silveira que falará sobre Arqueologia na Amazônia.
O evento
O Congresso Brasileiro de Paleontologia, iniciativa da Sociedade Brasileira de Paleontologia (SBP), ocorre a cada dois anos e objetiva congregar os profissionais e estudantes de Paleontologia do Brasil. Segundo os organizadores, “a iniciativa de se promover o 21º Congresso na região norte é de fundamental importância para expandir nacionalmente os conhecimentos afins dando oportunidade de troca de informações entre os mais diversos interessados em Paleontologia do País e de conhecerem mais de perto os fósseis da Amazônia”.