As barreiras para uma ciência internacional e o fracasso da Unesco – órgão das Nações Unidades para Educação, Cultura e Agricultura - em organizar a pesquisa na Amazônia são temas da conferência que o francês Patrick Petitjean, apontado como um dos maiores nomes da história da ciência mundial, profere no Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG/MCT), em Belém (PA) nesta quinta-feira (22), às 9h30.
Com mediação da antropóloga Priscila Faulhaber, o pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisas da França (CNRS), fala sobre A Unesco e o Instituto Internacional da Hiléia Amazônica (IIHA).
O historiador considera a tentativa de criação do IIHA "um dos maiores fracassos do início da Unesco". Segundo Petitjean, apesar de a ciência ser universal, são muitas as barreiras para se fazer ciência internacionalmente.
A criação do IIHA é o exemplo analisado pelo conferencista que abordará a proposta de Paulo Carneiro, delegado brasileiro na primeira Assembléia Geral da Unesco, realizada em 1946, em Paris, na França. Apesar de ter o apoio de Joseph Needham, diretor de Ciências Naturais da Unesco à época, a proposição foi rejeitada.
Interesses
Como se observa ainda hoje, muitos são os interesses envolvidos quando se trata de estudar a Amazônia. Para Needham, não só, a Unesco deveria criar o Instituto de Paulo Carneiro, mas também orientar suas ações para outros países que precisassem se desenvolver cientificamente.
O projeto de Carneiro tinha como ponto de partida a reforma cientifica do Museu Goeldi e sua transformação num centro de pesquisas reconhecido internacionalmente. Discutida em conferência internacional, em Belém, em agosto de 1947, a proposta foi alvo de críticas. Enquanto a proposição de Carneiro era a de um centro dedicado às pesquisas básicas e transdisciplinares abrangendo as ciências naturais, as ciências humanas e as sociais; Felisberto Camargo, do então Instituto Agronômico do Norte (IAN), defendia pesquisas mais voltadas para a valorização econômica.
Outros esforços ainda foram feitos para a criação do IIHA sem sucesso. Em maio de 1948, por exemplo, realizou-se outra conferência, dessa vez, em Iquitos, que definiria o estatuto jurídico do IIHA e seu financiamento. Duas missões, uma dedicada às ciências naturais, e outra para a etnografia, ainda chegaram a ser financiadas pela Unesco entre 1948 e 1949.
Vítima de divergências políticas de peso, o projeto, no final, acabou abortado poucos meses depois. De um lado, os Estados Unidos eram contra o IIHA por considerarem que a América Latina era território reservado para eles e que não deveria ter interveniência da Unesco. Doadores de fundos de peso, os EUA fizeram pressão para que a entidade não tivesse recursos financeiros necessários para levar adiante a idéia.
No Brasil, a pressão teve origem nos movimentos nacionalistas para os quais o IIHA era uma ingerência internacional na Amazônia. A proposta também era alvo de oposição de parte de cientistas e economistas. Em condições adversas, o Congresso Brasileiro se negou a ratificar os acordos internacionais que regiam o IIHA e entre 1949 e 1950, o Instituto desapareceu.