Depois de 40 dias enfrentando temperatura de até 40 graus negativos e ter coletado dezenas de amostras de gelo e neve, em altitude superior a dois mil metros no interior do Continente Antártico, os sete brasileiros e um chileno que integram a expedição Deserto de Cristal deixaram a região e voltam para Punta Arenas, no Chile.
Essa foi a primeira vez que uma equipe nacional avançou para pesquisar no interior do continente gelado, embora o Brasil esteja presente no litoral da Antártica desde 1984, com a instalação da Estação Comandante Ferraz.
O glaciologista e coordenador da equipe Jefferson Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), disse que "a missão foi um sucesso" e que tudo saiu dentro do planejado. Para ele, os resultados alcançados até agora a nível de pesquisa científica colocam o Programa Antártico Brasileiro (Proantar) num patamar mais avançado. "Podemos dizer que a partir de agora o Brasil passa a ser visto com muito mais reverência no Continente Antártico.
Entre o material obtido pela equipe, Simões classificou com dos mais importantes as duas amostras de gelo coletadas em perfurações de 45 e 95 metros de profundidade a 2.100 metros de altitude no Monte Johns. "Essas amostras poderão nos fornecer informações sobre a variação do clima e mudanças atmosféricas ao longo dos últimos 250 anos ou mais", afirmou Simões. Ele espera ainda que o resultado desse trabalho contribua para os estudos sobre o aquecimento global.
A base da expedição foi instalada a mais de dois mil quilômetros da Estação Comandante Ferraz e a 1 mil do Pólo Sul Geográfico. Nesse período do ano, o Sol brilha por 24 horas na região, mas a temperatura se mantém em torno dos 10 graus negativos com sensação térmica de –20º C. Segundo Simões, nenhum componente da equipe teve problemas de saúde e a maior parte das reclamações é quanto a comida, pois o cardápio é formado em sua maioria de alimento industrializado. "A gente sente muito a falta de alguns produtos como feijão e fibras, por exemplo", comentou o coordenador.
A expedição Deserto de Cristal é parte das ações brasileiras no Ano Polar Internacional. Ela foi financiada pelo Proantar por ações do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq/MCT) e da Secretaria da Comissão Interministerial para Recursos do Mar (Cirm), tendo ainda o apoio da Frente Parlamentar em Prol do Proantar, Ministério do Meio Ambiente e Academia Brasileira de Ciências (ABC)