Audiência pública da Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCT)
31/10/2008 - 09:34
A elevação de investimentos feitos pelo governo em ciência e tecnologia deve ser acompanhada de maior participação do setor privado em pesquisa e desenvolvimento. Esse foi um dos principais pontos ressaltados pelos participantes de audiência pública promovida sobre o tema pela Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCT) do Senado, nesta semana.
O Brasil investe atualmente cerca de 1% de seu Produto Interno Bruto (PIB) em ciência e tecnologia, segundo informou o presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq/MCT), Marco Antonio Zago. É o país que mais dedica recursos ao setor na América Latina, acrescentou, tanto em relação ao PIB como em valores absolutos. Mas 80% das pesquisas, ressaltou, encontram-se nas universidades. “Se queremos usar a ciência e a tecnologia para o desenvolvimento, esse quadro deve mudar. Precisamos de mais pesquisadores no setor produtivo”, disse Zago.
A mesma sugestão foi apresentada pelo presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Marco Antonio Raupp. De acordo com ele, os cientistas estão sensibilizados com os avanços feitos no setor durante o atual governo. Entre eles, como mencionou, a integração da ciência e da tecnologia com a formulação de políticas nacionais de desenvolvimento. O cientista considerou, porém, crucial o aumento dos investimentos privados em pesquisa.
“Se estamos satisfeitos, também nos encontramos preocupados, pois estão chegando as nuvens escuras da crise internacional. É preciso que se estimule a inovação dentro das empresas. Não temos muita tradição nisso, mas já contamos com exemplos”, afirmou Raupp, citando entre os casos de sucesso as atividades de pesquisa da Petrobras, da indústria aeronáutica e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
O presidente da Academia Brasileira de Ciência (ABC), Jacob Palis, concordou com a existência de um momento extraordinário para o setor no País, mas advertiu para a necessidade de os pesquisadores brasileiros conquistarem maior projeção internacional. “O Brasil precisa ganhar um Prêmio Nobel”, afirmou Palis, que apresentou ainda uma sugestão de ampliação de investimentos na região amazônica.
Palis ressaltou o empenho da ABC na busca de novos talentos científicos em todo o Brasil. Raupp, por sua vez, recordou a necessidade de maior atenção ao ensino básico de ciências, desde a educação fundamental, como forma de atrair a atenção dos jovens. E Zago admitiu que o País ainda encontra-se em posição desvantajosa na área de recursos humanos.
Segundo o presidente do CNPq, o País forma anualmente cerca de dez mil doutores. O número pode ser considerado grande, quando se observa que são formados no Brasil cerca de 75% dos doutores da América Latina. Mas também pode ser visto como modesto, quando se constata que equivale ao número de doutores de países como França e Espanha, que têm uma população bem menor.
Além de aumentar o número de pesquisadores, sugeriu o presidente do CNPq, a Nação também deveria rever suas prioridades. Ao traçar um quadro comparativo com a China, ele observou que a principal ênfase do país asiático está na formação de recursos humanos ligados à engenharia, enquanto no Brasil a engenharia ocupa apenas o quinto lugar, atrás de áreas como medicina e agricultura. “Precisamos não apenas formar mais pessoas, como também mudar um pouco o perfil dos cientistas e tecnólogos formados no Brasil”, ressaltou Zago.
Autor do requerimento para a realização da audiência, o senador Renato Casagrande (PSB-ES) defendeu a descentralização de recursos destinados à ciência e à tecnologia para que estados menores também sejam beneficiados. Ele concordou ainda com a necessidade, ressaltada pelos convidados, de maior participação do setor privado. A audiência foi presidida pelo senador Wellington Salgado (PMDB-MG).
Informações de Marcos Magalhães, da Agência Senado