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Mulheres na pesquisa: uma realidade
08/03/2005 - 14:07

A inserção social das mulheres é um processo lento que começou há poucos anos, face ao longo período em que lhes eram impostas condições de submissão, reclusão e até violência. Hoje, ainda que continuem existindo barreiras como o preconceito e a falta de sensibilidade para os problemas exclusivamente femininos, já podemos encontrar um número expressivo de mulheres que trabalham, exercem liderança e decidem.

O estudo Igualdade de Gênero nos âmbitos da Ciência e Tecnologia na América Latina, realizado pela Unesco em 2004, analisando, entre outros itens, a participação da mulher na política de C&T nos últimos cinco anos, revela que as mulheres, no Brasil, vêm conquistando um aumento na participação social em diversos aspectos. Tanto que, segundo o estudo, desenvolvido a partir de documentos oficiais e entrevistas com pesquisadores que ocupam cargo de liderança em diferentes áreas de Ciência e Tecnologia, o País vem apresentando um progresso médio quanto ao IDG ? Índice de Desenvolvimento de Gênero, definido pelo Pnud. Esse índice mede a desigualdade entre homens e mulheres em três dimensões básicas: longevidade e saúde, conhecimento e qualidade de vida. Desde 1999, o Brasil vem ocupando posições ligeiramente superiores sem registros de oscilações negativas. No período 1999-2003, o País passou da 67ª posição  para a 58ª, o que significa um avanço social quanto às oportunidades oferecidas às mulheres.

Na área da ciência e tecnologia, por exemplo, os dados recentes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) revelam uma realidade otimista quanto ao avanço do crescimento das mulheres no mercado de trabalho. No total do número de bolsas no País, os números revelam que a diferença entre o número de bolsistas mulheres e homens vem diminuindo, caminhando à igualdade. Enquanto os homens representavam 55% dos bolsistas em 2001, hoje essa porcentagem diminuiu para 51%.

Além disso, os números de modalidades que representam o início da vida acadêmica e científica ? Pibic/IC e Mestrado ? mostram um predomínio feminino, o que significa a expectativa de mudanças no futuro, já que, a partir do doutorado, o número de homens supera o de mulheres.

Em algumas áreas, essa regra não vale. Em áreas histórica e culturalmente ditas como femininas, os dados confirmam a tendência de atrair mais mulheres do que homens. Nas Ciências Humanas, Ciências Sociais e Ciências Sociais Aplicadas, Lingüística, Letras e Artes, o número de bolsistas mulheres sobressai em todas as modalidades.

Ao contrário do que muitos pensam, por se tratar de áreas das exatas, as Ciências Biológicas e as Ciências da Saúde também atraem mais mulheres do que homens. Cerca de 5 mil e 3 mil bolsistas, respectivamente, são do sexo feminino, enquanto os homens totalizam 3,5 mil e 1,5 mil, respectivamente.

No entanto, dados da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ufrj)mostram que, nesse caso, nem sempre foi assim. Em 1977, no curso de medicina, por exemplo, os homens representavam 65% dos estudantes matriculados. Em 1990, começou a inversão. Nesse ano, entre os matriculados, 62% eram mulheres. O mesmo aconteceu no curso de odontologia. Já as pesquisas ligadas às Ciências Exatas e da Terra, Ciências Agrárias e Engenharias ainda são predominantemente realizadas por homens. A diferença chega a quase o dobro. Hoje, temos 8.332 mulheres bolsistas nessas áreas e mais de 15 mil homens.

Mas, apesar do efetivo progresso na inserção da mulher no mercado de trabalho, ainda há muito que melhorar. O estudo da Unesco denuncia que, ainda que entre os egressos das universidades as mulheres superem os homens, a realidade se inverte quando analisados os dados de pós-graduação e inserção no mercado de trabalho. Segundo os depoimentos obtidos pela Unesco, há, também, desigualdades quanto à ocupação de cargos de liderança.

De fato, como lembra a engenheira química Fátima Brayner, presidente do Instituto Tecnológico do Estado de Pernambuco (ITEP), a Escola Politécnica da USP nunca foi dirigida por mulheres, e o ITEP, ao longo de seus 63 anos, somente teve três mulheres como presidentes, sendo que duas ocuparam os cargos entre 2001 e 2005. ?Considerando o aspecto da gestão, há diferenças substanciais entre os olhares masculino e feminino. Como pesquisadora tive de enfrentar inúmeras dificuldades. Os colegas têm uma atitude de proteção, que na verdade reflete o preconceito ainda existente, em particular para quem vai trabalhar com a área cientifica e tecnológica. A estrutura de poder, nessa área, no que diz respeito ao gênero, é a mesma existente na sociedade brasileira.", conclui a pesquisadora, que acabou de ser eleita para o Conselho Deliberativo do CNPq.

Os motivos para a existência dessas desigualdades são vários, de acordo com os entrevistados pela Unesco. Além do preconceito, foram apontados problemas como múltiplas funções sociais exigidas das mulheres; capacidade subestimada culturalmente e visões estereotipadas sustentadas tanto por homens quanto por mulheres; e a falta de políticas públicas e ações afirmativas.

Políticas públicas e ações afirmativas
Atentas a essa realidade, que dificulta o progresso feminino no mundo da ciência, ainda que a evolução seja notável, pesquisadoras de áreas historicamente dominadas por homens organizaram, em novembro de 2004, a Conferência Ciência Mulher - Mulheres Latino-Americanas nas Ciências Exatas e da Vida. O evento contou com o patrocínio do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e o apoio de instituições nacionais e internacionais (MCT, CNPq, Finep, Faperj, CLAF, Unesco e ICTP).

Durante a conferência, foram detectados vários problemas que representam um entrave no ingresso, na permanência e no crescimento profissional da mulher em uma carreira acadêmica e científica. Assim como nas respostas obtidas pela Unesco, o aspecto cultural também foi apontado, ressaltando que as ?interpretações distorcidas de possíveis diferenças biológicas se manifestam na influência da família, na escola e na sociedade em geral e levam a uma presença reduzida de mulheres na área das ciências, principalmente exatas e tecnológicas?.

Além disso, a falta de incentivo familiar causada pelo preconceito; os filhos e a decorrente jornada dupla de trabalho; a visão estereotipada da mulher como modelo de fragilidade, que se contrapõe à imagem de dureza da carreira em ciência e tecnologia; e o assédio moral e sexual são problemas reais que, segundo o documento apresentado pelas conferencistas, levam a conseqüências como a baixa auto-estima e o excesso de auto-crítica.

Assim, é exigida das mulheres, até por elas mesmas, uma dedicação excessiva. ?A mulher bem sucedida trabalha muito?, afirmou Beatriz Barbuy, pesquisadora 1A do CNPq e coordenadora do Instituto do Milênio para Evolução de Estrelas e Galáxias na era dos grandes Telescópios. ?Creio que o machismo ocorre mais freqüentemente dentro do casamento. As mulheres produtivas ou têm maridos compreensivos ou não são casadas?, completou a pesquisadora, revelando que as dificuldades profissionais enfrentadas pelas mulheres muitas vezes influenciam, também, na vida pessoal.

Segundo as pesquisadoras participantes da conferência Ciência Mulher, a situação pede uma série de ações visando ao combate dos preconceitos e ao estímulo da inserção das mulheres na ciência e tecnologia. No âmbito da sociedade civil, foi proposto que os meios de divulgação se sensibilizem para não perpetuar os estereótipos relativos à condição feminina; que as mulheres pesquisadoras sejam mobilizadas a estarem mais presentes na mídia; e que se estimule jovens mulheres a escolherem carreiras científicas e, simultaneamente, educar os meninos para que as aceitem e apóiem nessa iniciativa.

Quanto às políticas públicas, as pesquisadoras apontam a necessidade de criar um mecanismo de ação conjunta entre os órgãos governamentais responsáveis por políticas de gênero com aqueles ligados à ciência e tecnologia e a implementação de benefícios legais. Entre esses benefícios estariam a licença maternidade remunerada para bolsistas de doutorado e mestrado; a garantia do cumprimento da lei de creches; e a oferta de serviços de auxílio às mães em congressos científicos. Foi apontada, também, a importância do estabelecimento de subsídios de reinserção para as mulheres que se desvincularam do sistema científico por razões familiares.

Enfim, o consenso é que, para mudanças efetivas, é imprescindível, acima de tudo, criar uma nova imagem da mulher. Assim, é importante estimular a presença feminina, seja pelo apoio dos meios de divulgação, seja pelo financiamento de estudos e pesquisas de gênero, seja por meio de cotas que garantam a representatividade de mulheres em comissões, comitês e conselhos de agências de fomentos e órgãos governamentais. Por fim, as pesquisadoras de todo o País presentes na Conferência sugeriram a criação da Rede Latino-Americana de Mulheres em Ciência e Tecnologia como um mecanismo de discussão de idéias e comunicação entre pesquisadoras e Governo Federal.

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