O dia é 25 de novembro. A temperatura é 30,1º negativos, a uma altitude de 2.622 metros acima do nível do mar. O cenário é o Platô Antártico, a região mais seca, mais fria e menos conhecida do planeta Terra, que preparou para a equipe científica chileno-brasileira da Antártica, perto da sua chegada ao Pólo Sul Geográfico, "um dos fenômenos meteorológicos mais belos, a ?poeira de diamante?".
A cena está descrita no diário de bordo da equipe da primeira expedição científica latino-americana para o centro do continente gelado, que atingiu o Pólo Sul Geográfico por terra, às 21h30 do dia 30 de novembro, e começa a retornar para a estação chilena Patriot Hills, realizando diversos estudos sobre o gelo. O grupo formado por 12 chilenos e pelo brasileiro Jefferson Cardia Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), percorreu 1.140 km em 16 dias, a partir da estação polar chilena.
O objetivo é avançar na investigação do papel da Antártica nas mudanças ambientais globais, principalmente no controle do clima da América do Sul. Os perigos foram a baixa temperatura, ventos de mais de 160 quilômetros por hora, além de fendas que podem chegar a 50m de profundidade.
Na bagagem, 600 kg de equipamentos científicos, inclusive perfuradora de gelo e material para avaliar a amostragem do gelo antártico, que saiu do Brasil. O meio de transporte é um trator polar sueco Berco TL-6, configurado para funcionar abaixo de 60º negativos. Esse veículo rebocou contêineres com combustível, alimentação, barracas e equipamento científico.
Apesar do sucesso da missão, Simões considera que a parte mais importante da travessia será realizada no retorno, quando o pesquisador, primeiro brasileiro a atravessar o manto de gelo antártico e a atingir o Pólo Sul Geográfico, irá perfurar vários poços no gelo para coletar amostras de neve que caiu ao longo dos últimos 400 anos. A expedição deverá ser concluída somente na primeira semana de janeiro de 2005.
Outro brasileiro que compõe a equipe de pesquisadores da expedição é o professor da UFRGS, Francisco Aquino, que está realizando estudos sobre o clima na estação de Patriot Hills.
Jefferson Simões é pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, e do Programa Antártico Brasileiro (Proantar).
Maiores informações através do site:
https://www.ufrgs.br/nupac/travessia/index.htm