O mercado de trabalho brasileiro ainda não está preparado para absorver os egressos dos cursos de doutorado, cerca de 8,1 mil em 2003, número que vem crescendo a cada ano cerca de 15%. A constatação foi apresentada ontem (22) pelo estatístico da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Ricardo Lourenço, na 56ª reunião anual da SBPC, durante o painel Mercado de trabalho para jovens doutores. Segundo ele, isso se dá porque o setor privado não acompanhou nem investiu o suficiente em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) para atrair doutores para suas empresas.
O sistema nacional de pós-graduação no Brasil nos últimos 15 anos vem crescendo a uma taxa média anual de seis pontos percentuais, sendo que nos últimos três anos cresceu oito pontos. Hoje, segundo Ricardo Lourenço, o País conta com 1.939 programas, responsáveis por 2.993 cursos, sendo 1.959 de mestrado e 1.034 de doutorado. Com relação ao número de titulados, mostrou que em 1987 as instituições formavam 3.600 mestres e 868 doutores por ano, contra 27.800 mestres e 8.100 doutores em 2003. E mais: disse que essa tendência está assegurada pelo menos por mais quatro anos, a uma taxa média de crescimento em torno de 15% ao ano.
Para absorver tanta mão-de-obra qualificada, é preciso incentivar e preparar as empresas brasileiras para investirem em pesquisa e desenvolvimento. O estatístico da Capes informou que dos 61 mil pesquisadores cadastrados no Diretório de Grupos de Pesquisa do Brasil, mantido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), apenas três mil trabalham com P&D. O restante não está presente na cadeia produtiva, mas exercendo funções acadêmicas e de pesquisas nas universidades e outras instituições congêneres.
O conferencista Luciano Moreira, presidente da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), lembrou que incentivos como o projeto de política industrial do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), voltado para desenvolver áreas como fármacos, software, biomassa e biotecnologia, entre outras, pode ser o começo para a absorção pelas empresas desses jovens doutores que se titulam a cada ano.
O representante da ANPG também cobrou das agências de fomento o aumento do número de bolsas de estudo e de pesquisa, ressaltando que a estagnação desse número pode comprometer o que se conseguiu até agora pelo sistema nacional de pós-graduação. Disse ainda que as universidades não têm recomposto seus quadros de acordo com as vagas disponíveis, e que isso também compromete todo o sistema de concursos públicos para contratação de professores, caso não sejam autorizados imediatamente pelo governo.